Farense capa

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sexta-feira, 21 de março de 2014

Caniggia





“Farense melhorou bastante com Jorge Paixão”

Quantos Farenses somos? - Olá, Caniggia. Ainda está a jogar no Louletano, como está a correr?

Caniggia – Comparado com os anos anteriores, a situação está bem melhor agora. O objetivo é a permanência e devemos conseguir assegurá-la.

QFS – É diferente ter o Manuel Balela, também ele uma grande figura na história do Farense, como treinador?

C – Obviamente que o míster Balela tem um conhecimento profundo da equipa, do futebol algarvio e exige sempre o máximo dos jogadores. Todos os outros treinadores que tivemos eram competentes, atenção, mas toda a gente falha e quando as coisas não correm bem no futebol, já se sabe que a culpa é sempre do treinador. Neste caso, é uma questão de haver agora um maior compromisso com o treinador e o clube.

QFS – E continua a seguir o Farense?

C – Claro que sim, joguei aí cinco anos e tenho muita gente conhecida no clube e em Faro, tenho ligação com vários jogadores do atual plantel e também com alguns adeptos. Estou sempre a acompanhar.

QFS – O clube do coração, porém, é mesmo o Louletano?

C – Foi o Louletano que me deu a oportunidade de me lançar e que me tem acolhido sempre. Salvo erro, esta é a quinta vez que saio e regresso. Isto pesa, não é? De qualquer forma, se há outro clube por quem nutro enorme simpatia e respeito, é o Farense.

QFS – Como classifica esta época da equipa?

C – No início, foi de muita preocupação. Todos os adeptos, os jogadores, a estrutura, estavam preocupados com os fracos resultados. Depois, com a chegada do [Jorge] Paixão, a situação melhorou bastante. De qualquer forma, todos sabíamos que este não era um ano de subida. Claro que o Farense é um clube com pergaminhos, tem sempre de ter ambição, mas tínhamos de ser realistas.

QFS – Mas acredita num Farense na I Liga num futuro próximo?

C – Se há um clube que, pela sua história e envolvimento dos adeptos, merece estar na I Liga, é o Farense. Qualquer conhecedor do futebol algarvio sabe que na região, o clube cujo envolvimento dos adeptos é mais forte é o Farense, não tem comparação com mais nenhum. Esperemos que volte rapidamente ao que já foi, faz falta na I Liga. Até para o bem do futebol algarvio, é bom ter várias equipas lá em cima, é bom para o desenvolvimento dos jovens valores do Algarve e também para equilibrar o panorama do futebol em Portugal: está tudo muito virado para o Norte…

QFS – Conhece bem o professor Antero. A equipa está em boas mãos?

C – O melhor elogio que lhe posso fazer é este: é competente e gosta muito, muito do Farense. Ajudou-me muito. Não me compete dizer se deve ficar mais tempo, também não sei quais os objetivos que a direcção vai estabelecer para a próxima época, o que posso dizer é que o Antero é uma pessoa competente e adora o clube.




“Quando cheguei em 2001/02 o Farense estava ligado à máquina”

QFS – Chegou ao Farense em 2001/02, com 24 anos, vindo da II B. Como se deu essa oportunidade?

C – Dei nas vistas no Louletano na época anterior e ter o clube mais emblemático do Algarve, na I Liga, a querer-me contratar foi um salto grande, o alcançar de um objetivo para o qual trabalhei muito. Não esqueço a estreia, logo na primeira jornada com o Salgueiros.

QFS – Infelizmente a época não foi feliz…

C – O clube já estava ligado à máquina naquele ano. E curiosamente, senti o clube mais forte na segunda passagem, mesmo estando primeiro na III Divisão. Parece que as pessoas em 2001/02 já estavam conscientes do que poderia acontecer e estavam mais desligadas já do clube. Felizmente agora a situação mudou muito para melhor.



QFS – Curiosamente, o Caniggia fez 12 jogos para o campeonato nessa temporada, e todos como suplente utilizado! Porque é que nunca foi titular?

C – Sinceramente, não faço ideia! E tivemos quatro treinadores nesse ano: Alberto Pazos, até o Hajry nalguns jogos, depois o Jorge Castelo e ainda o Paco Fortes. Além disso, houve duas administrações, foi um ano muito difícil.

QFS – Já se previa o que viria a acontecer depois?

C – Nunca pensámos que pudesse chegar ao extremo do clube acabar. Sabíamos que estava muito complicado, mas acabou por ir mais longe do que esperávamos.

QFS – E depois da travessia no deserto que o clube atravessou, acreditou que o cenário actual era possível?

C – Sinceramente, houve uma altura que, tal como muita gente, não acreditava, sentimos mesmo que não havia solução. Depois, a partir do momento em que vimos o trabalho que estava a ser feito pelo ressurgimento do clube, aí sentimos que era possível. Foi uma recuperação brutal, é um trabalho que ficará para sempre.


“Sou Caniggia pelo cabelo, marcava menos uns golos que o verdadeiro…”

QFS – Tirando uma passagem pelo Estoril e outra pelos Açores, no União Micaelense, só jogou em clubes algarvios!

C – É verdade, consegui sempre ficar aqui em baixo. Era um pouco a minha zona de conforto, achei sempre que seria melhor estar perto da família.

QFS – No Estoril, disputou a II Liga…

C – Foi uma experiência fantástica, a minha primeira num campeonato profissional. Aprendi muito com o Pietra, o Rui Águas, o Isidro Beato, que foram meus treinadores lá. Errei muito, é verdade, mas é assim que se aprende também.

QFS – O Caniggia, de resto, pode dizer que já atuou em todas as divisões nacionais de Portugal!

C – É verdade! Mas curiosamente o futebol jogado nas várias divisões não é assim tão diferente, é até bastante idêntico. Claro que há mais qualidade aqui e ali, nos escalões superiores é normal que assim seja, e as primeiras divisões claro que são mais mediáticas, mas o jogo em si não tem grandes diferenças.

QFS – Na primeira passagem pelo Farense era extremo-direito, mas na última jogou quase sempre como lateral! Como se deu essa mudança?

C – Eu fui extremo até aos 31 anos. Um dia, num jogo houve uma substituição e calhou recuar. Correu-me bem e a partir daí comecei a alternar as posições, mas depois já no Farense realmente joguei a lateral já de forma mais constante. Ainda fiz alguns jogos como interior direito, particularmente no tempo do Rui Esteves.

QFS – Apesar de ser extremo, na primeira passagem não marcou qualquer golo…

C – Estive perto algumas vezes, lembro-me por exemplo com o Leiria, mas não consegui. Foi uma época conturbada, também não havia muita gente a marcar golos no Farense… Desta segunda vez já fiz uns três golitos.



QFS – E porquê a alcunha Caniggia, visto que o seu nome verdadeiro é David Hopffer?

C – O Caniggia já vem dos juniores no Louletano. Nessa época, o verdadeiro Caniggia chegou ao Benfica, e como eu tinha também o cabelo comprido, começaram a chamar-me assim.

QFS – Mas marcava menos uns golitos! (risos)

C – Alguns a menos, sim. Mas eu nos juniores até marcava, jogava mais como avançado.




“Imagem dos adeptos a confortar-nos na descida de 2010/11 não me sairá da cabeça”

QFS – Porque saiu no fim de 2001/02, após a descida à II Liga?

C – Ainda fiquei para a época seguinte, mas acabei por rescindir na pré-época. A situação já estava a ficar insustentável, não havia condições para ficar.

QFS – Nunca mais teve uma oportunidade de jogar na I Liga?

C – Não, nunca mais se proporcionou. Se calhar faltou um bom empresário… Cheguei a ter convites para a II Liga, na altura para o Portimonense, mas depois não aconteceu.

QFS – Como se deu o regresso ao Farense em 2008/09?

C – Comecei a pensar de forma diferente, já tinha 31 anos e quis entrar no mercado de trabalho, o que tornou complicada a permanência no Louletano, que treinava duas vezes por dia. Por isso aceitei ir para o Farense, que na altura estava na III Divisão. Mesmo assim, em Faro na última época a equipa treinava de manhã e eu treinava à noite sozinho, com o Antero.

QFS – Foi por isso que não ficou para o ataque à II B em 2012/13?

C – Sim. O clube propôs-me continuar, mas depois decidiu que ia passar a fazer treinos de manhã e de tarde, e isso era insustentável para mim, por causa do meu emprego. Já não estava em idade de corresponder às exigências do futebol profissional, por isso fui falar com o presidente Barão. E ele compreendeu a minha situação, claro.



QFS – Depois da alegria que foi a subida à II B em 2009/10, foi uma grande desilusão descer novamente em 2010/11, em casa com o Atlético de Reguengos?

C – Foi uma coisa muito triste, pela maneira como aconteceu. Depois de termos feito uma recuperação extraordinária na segunda volta com o João de Deus, onde nem pudemos inscrever jogadores novos, na última jornada só precisávamos de empatar em casa e estivemos a ganhar e a jogar algum tempo com mais um. Se calhar pensámos que estava feito e acabámos por nos acomodar um pouco ao resultado. E perdemos… Mas o público teve uma reação fantástica, entrou no campo e veio confortar-nos. Foi uma imagem que nunca me sairá da cabeça.

QFS – João de Deus é um bom treinador? Hoje está no Gil Vicente…

C – É muito bom, gostávamos muito dele. Em termos de estratégia, de preparação dos jogos, era muito meticuloso. Mas o Rui Esteves, o Ivo, também eram muito bons, muito profissionais, faziam do futebol e do Farense a sua vida.

QFS – Mas a equipa reagiu da melhor forma no ano seguinte.

C – Foi um ano em que correu tudo bem, batemos recordes nacionais de imbatibilidade, só perdemos dois jogos já na fase da subida. No fim subimos de forma natural.


QFS – Mesmo nessas divisões mais secundárias, o apoio dos adeptos nunca vos faltou?

C – Nunca. Se há alguma coisa que qualquer atleta do Farense não tem razões de queixa, é do apoio dos adeptos. Eles têm um grande compromisso com o clube, nunca falham. Ficarão para sempre na minha memória, até porque na última época fui considerado pelos South Side o jogador que mais produziu, ao fim e ao cabo o jogador do ano. Recebi o troféu com o nome do falecido Joaquim Sequeira. Isto marca qualquer atleta, foi um dos momentos altos da minha carreira.

QFS – Vai sempre recordar com saudade os anos que jogou no Farense, presumo então…

C – Claro, foram anos que me marcaram. Naquele clube houve sempre uma simbiose perfeita entre os jogadores e os treinadores com os adeptos. É essa a festa do futebol, e os South Side são um dos exemplos do porquê do Farense ser tão grande.


QFS – Como foi voltar ao São Luís a época passada como adversário?

C – Não tive razões de queixa, fui bem recebido como sempre. Claro que competição é competição, e quando começa o jogo só quero vencer pela minha equipa, no caso o Louletano, mas sempre com o máximo respeito de parte a parte.



“Hassan era uma força bruta, um goleador nato"

QFS – Nunca pensou sair do país?

C – Pensei, aos 20 anos cheguei a estar na Coreia do Sul e na Alemanha. Na Coreia estive três semanas, mas ao fim da primeira já me queria vir embora. Tinha 20 anos, a cultura era completamente diferente e fez-me muita confusão. Hoje olho para trás e recordo a experiência com saudade (risos).

QFS – E na Alemanha, porque não ficou?

C – Porque não me quiseram (risos)! Estive à experiência no Duisburgo, mas acabei por não ficar.

QFS – E porquê a experiência nos Açores em 2004/05?

C – Foi um convite do Isidro Beato, que tinha sido meu treinador no Estoril.

QFS – No ano seguinte, representou a terceira equipa algarvia da carreira, o Silves, que na altura estava na II B…

C – Tenho de agradecer ao Silves, porque nesse ano tive uma ruptura de ligamentos, estive vários meses parado e o Silves deu-me a oportunidade de competir nos últimos meses da época até voltar ao Louletano depois.

QFS – Chegou a lutar pela subida à II Liga pelo Louletano!

C – Éramos treinados pelo Portela [outra velha glória do Farense]. A ambição nesse ano era mesmo de subir, acabámos com os mesmos pontos do primeiro [Real Massamá], mas perdemos no confronto directo. Nos últimos anos o clube tem baixado o orçamento, não fugiu à regra de quase todos no futebol português, agora é só para a permanência.

Quem foram os melhores jogadores com quem jogou?

H – No Estoril, Mauro Airez, que era muito bom avançado, ou o Paulo Ferreira, que na altura jogava a médio centro, muito antes de ser lateral-direito com o Mourinho. No Farense, o Hassan, uma força bruta, um goleador nato. E um espanhol, o Rodri, que vinha da formação do Real Madrid. E no Louletano, o Pagani, um jogador de grande classe.

QFS – E treinadores?

C – Todos me marcaram. Houve momentos bons e menos bons com todos, não vou referir nenhum em especial.

QFS – Além das duas subidas de divisão com o Farense e a estreia na I Liga, que outros momentos altos teve na carreira?

C – Algumas eliminatórias da Taça pelo Louletano, onde eliminámos o Setúbal do Jorge Jesus, o Santa Clara, o Penafiel… Pelo Estoril, ganhámos no Restelo, o que na altura era um grande feito, fomos ganhar a casa do Moreirense…


QFS – No ano em que eliminam o Setúbal, depois receberam o Benfica! Jogou esse jogo?

C – Joguei e correu-me muito bem. Se calhar também pode ter ajudado ao interesse do Farense em mim. Perdemos 3-1, mas quando marcámos o golo foi uma festa imensa. Era a festa da Taça.

QFS – Tem 37 anos. Até quando vai continuar a jogar?

C – Agora é semana a semana (risos)! Não me posso dar ao luxo de fazer grandes projecções. Enquanto sentir que sou útil à equipa, vou continuar, tenho essa obrigação. Por agora, continuo a senti-lo.

QFS – Quer deixar uma mensagem aos adeptos do Farense?

C – Que continuem a ser um exemplo.

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